Às terças-feiras, quando não havia deliberação do conselho, o rei saía do castelo disfarçado de plebeu. Levava sempre consigo uma moringa, porque no deserto era difícil encontrar água fora do palácio, mesmo na cidade.
Tempos atrás saiu nos Anjos de Prata uma história minha narrando a aventura de uma senhora, Dona Matilde, que ia resgatar a filha na Itália. Quem não leu, leia aqui.
Na época me criticaram dizendo que a história acabava de repente. Uns queriam saber o que aconteceu depois. Outros simplesmente não entenderam o último parágrafo.
Pois bem. Escrevi uma continuação: Dona Matilde tem filha na Europa, parte II. Fico feliz se alguém ler e comentar. Só faço uma advertência: se disserem que acaba de repente, ou que não gostaram do final, eu escrevo a continuação da continuação.
Clinton e Bush gravaram um apelo para que os americanos doem às vítimas do terremoto no Haiti. O programa holandês Comedy Central botou no ar um vídeo mostrando como foi a gravação. Muito engraçado.
No último dia 16 a Secretária de Estado Americana, Hillary Clinton esteve pessoalmente em Port-au-Prince levando solidariedade ao povo haitiano. Até aqui todos os jornais noticiaram.
O que não saiu nos jornais é que, para garantir sua segurança e viabilizar a visita, o já sobrecarregado aeroporto de Port-au-Prince esteve fechado ao tráfego por boa parte do dia. Fiquei sabendo de um funcionário da organização Médicos sem Fronteiras que um avião transportando um hospital de campanha foi desviado para a República Dominicana. A entrega do hospital só pode ser feita no dia seguinte. Como esta, outras aeronaves transportando ajuda humanitária concreta foram impedidas de aterrizar para que a Sra. Clinton pudesse aparecer diante das câmaras dizendo “para o governo [americano] a prioridade é salvar vidas humanas”.
É mesmo? Salvar vidas? Então por que não deixam os políticos em casa e mandam só as equipes de resgate, remédios e alimentos?
Encontrei num livro francês de cantigas de roda brasileiras algumas coisas interessantes sobre Escravos de Jó, que já comentei aqui outras vezes (aqui e aqui).
O livro se chama Comptines et chansons du papagaio – Le Brésil et le Portugal en 30 comptines, a autora é Lerasle Magdeleine e a editora é a Didier. Eu li na versão italiana, com título All’Ombra della papaia – Il Brasile e il Portogallo in 30 filastrocche, da editora Mondadori. Ambos parecem estar em falta na editora, o que é uma pena. O livro traz o texto das canções em português e italiano (ou francês), tem ilustrações bacanas, e vem com um CD.
No final do livro, a autora fala um pouco sobre cada uma das peças. Sobre Escravos de Jó, ela diz que exercita a lateralidade, a percussão e a destreza (…) O movimento cruzado de retorno e o vai-e-vem em ‘zigue-zigue-zá’ lembra os passos laterais do carangueijo e o bater das suas garras(…) Caxangá, sinônimo de siripu, designa um carangueijo do mangue e deu nome a um estilo de capoeira(…)Pode-se também jogar em pé, uns de costas para os outros, formando um círculo fechado e passando os objetos com os braços estendidos ao longo do corpo sem olhá-lo (…) O arranjamento musical prevê pandeiro, atabaque, chocalho, reco-reco, flauta e agogô.
A cada seis segundos uma criança morre de malnutrição. Nós produzimos alimentos suficientes para dar de comer a todo mundo que tem fome. Se isso não acontece, não é por falta de recursos, é por falta de vontade.
Está circulando pela internet um abaixo-assinado contra a fome. Não é um abaixo-assinado propriamente dito, porque não tem um destinatário específico nem um pedido concreto, mas é uma forma de dizer que está na hora de acabar com essa palhaçada. Eu já botei o meu nome lá. Bota o teu também:
Susan Blackmore estuda memética, o conceito de que ideias (memes) teriam vida própria que se reproduziriam da cabeça de uma pessoa para a outra competindo entre elas pela sobrevivência da mais forte, assim como os genes.
Pensamentos são parasitas. Não foi a Susan que pensou em falar, nem eu que pensei em postar, muito menos foi você que pensou em clicar. Foi o meme que veio se hospedar nas nossas cabeças.
A ideia de que memes passam de cabeça em cabeça é um meme. Todas as outras ideias, símbolos e práticas culturais também são memes. Pelo menos essa é a teoria.
Daí ela fala em temes, que seriam memes de tecnologia. Mas esse é um meme que eu acho que não vai vingar.
O termo meme foi cunhado por Richard Dawkins, autor de Deus, um delírio e O gene egoísta (Companhia das Letras), embora o conceito parece que já existisse antes. Esse cara me passa a imagem de um ateu dogmático - o que não deixa de ser uma forma de fundamentalismo religioso – mas a ideia da memética me pegou.
A história de um tomate da horta do Sr. Suzuki e uma crítica ácida e divertida da mecânica da sociedade de consumo. Ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim 1990
Elisabeth Gilbert é escritora, autora de Comer, Rezar, Amar (publicado no Brasil pela Objetiva). TED é uma conferência anual que reúne gente muito cool.
Em inglês.
Nessa conversa, Elisabeth parte do sucesso de seu último livro, da pressão que esse sucesso exerce sobre seus futuros projetos, da ansiedade que isso gera, para fala de como o significado da palavra gênio mudou a partir do renascimento e de quão melhor era a definição antiga.
Os gregos e os romanos não acreditavam que a criatividade fosse um atributo humano. Eles acreditavam que ela fosse um espírito divino que brotava de uma fonte desconhecida e distante por razões não menos desconhecidas e distantes. Os gregos chamavam esse espírito de daimon. Os romanos tinham a mesma ideia, mas o chamavam de genius.
Não se dizia: “fulano é um gênio”. Dizia-se: “fulano tem um gênio”. Essa semântica protegia a psique o artista dos efeitos da sua obra: se a obra era boa, ele não podia tomar todo o crédito para si. Se era ruim: “a culpa não é minha, foi o gênio que ditou”.
Então veio o renascimento e o homem foi posto no centro do universo. Não havia mais espaço para criaturas místicas escondidas nas paredes de casa. Pela primeira vez na história se ousou dizer que este ou aquele artista “é um gênio”.
Elisabeth argumenta que isso foi um grande erro. Permitir que um mero ser humano acredite ser o reservatório e fonte de tudo o que é divino, inimaginável, eterno e misterioso é dar responsabilidade demais a um frágil ego. É por isso que artistas bebem.
Na minha parte preferida ela conta que quando a poeta americana Ruth Stone era adolescente ela ”sentia” os poemas vindo até ela e tinha que correr para dentro de casa, alcançar lápis e papel antes que o poema passasse. Às vezes não dava tempo, o poema atravessava o corpo dela e ia embora “a procura de outro poeta”. Outras vezes ele quase escapava: ela pegava o lápis com uma mão e com a outra agarrava o poema pelo rabo e puxava ele de volta para dentro dela. Nessas vezes o poema saía perfeito no papel, só que de trás para frente.